Um pouco dos Continhos

Se ela é do tempo do penico em baixo da cama… é do tempo também das festas de largo rolando nove dias de novena, tempo do carnaval de três dias. Carnaval na rua de dia. Festas de largo de noite, lavagens matinais, presentes vespertinos – Ribeira um só dia de folia. Cervejada nas barracas. A semana da festa corre mansamente, a “véspera” é o quente, o dia todo.

Véspera de Bonfim ele disse aos amigos na barraca vou dar uma volta mais ela pela festa (era costume). A chave da casa do irmão viajante no bolso, ele mais ela foram passeando de mãos dadas, sem pressa. Era o que? Umas quatro da tarde? A emoção do chavear, entrar. Sozinhos na casa vazia. Beijos para fechar a porta. Abraços e amassos subindo a escadaria. Gozos mis na cama de casal. Nus. Meia-noves e agá-tesas, amores e putarias – sem penetração! Naquele tempo… Bem aquele era um tempo em que as moças casavam virgens…

###

Ela veio magrela, nem se agüentava nos quartos. Aceitei a bichinha já com um ano de idade, odiou ração desde o primeiro olhar, a dona não conseguia alimentá-la. Não insistimos. Percebendo… fomos dando uma comidinha de gente (à moda antiga), frutas, iogurte. O nome, minha língua jamais alcançaria Sharon, virou Xaréu. De tão gorda, ficou quadrada. Parecia uma mesa de centro.

###

Em que cadernos anotei as saudades de mim? Em que notas perdidas ficaram os vestidos vermelhos? Preto e branco de sonhos não sonhados. Sol de lascar, suor escorrendo a embaçar o olho de mesmo e o olho da máquina de retrato. Câmara fotográfica. Lágrimas também embaçam. Maquininha den’da bolsa. Sem filme, sem laboratório. Memórias, cabos, computador. Memória da memória. Saúda. Saudade. Saúde. Saudade. De mim – mais dia menos dia hei de partir.

###

Querendo imitar o anjo torto de Drummond uns anjões da boca dura me despacharam para ser retratista na vida. Mandões. Imperativos. Fotografa tu a água, a terra. Natureza e construção. Gente, muita gente. Capta o belo, o sabor. Tenta não fotografar a dor, as dores do mundo são pesadas demais. Injustiças não se resolvem com fotografia. Dona tu serás apenas – e é bastante, do teu olhar enquanto a catarata não o turvar. Se fotografar para ti for pouco, escreve.
Terás amigos. Serás feliz.
Ganhei sortes de São João, espadas-de-Ogum, belas folhagens de comigo-ninguém-pode.

Anúncios

Uma resposta para “Um pouco dos Continhos

  1. Maria Sampaio tem um jeito peculiar de contar histórias, descrever situações, revelar indiscrições. Peculiar e contagioso. Por vezes me pego falandoescrevendo como ela. Mais uma obra imperdível dessa e-amiga se vislumbra. Venham a nós essa e as demais prontas para ir ao prelo. Seus leitores agradecem.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s